Se eu pudesse explicar, diria que não durmo há dias, que não sonho há meses, que eu não saio mais de casa.
Diria que intencionei trocar meus amigos, ainda que a ausência deles viesse a me doer como uma cólica constante nos rins.
Diria que escrever se tornou um sufoco, que ler se tornou um tormento e que a música me ensurdece.
Se eu pudesse explicar, diria que o vinho há muito virou vinagre e que eu continuo sorvendo o líquido, agora ácido, sem sequer me dar conta.
13 de Julho de 2009
3 de Junho de 2009
eu silencio
O silêncio, minha querida, às vezes é vontade de não existir e também pode ser um louvor à vida. O silêncio é descanso, mas pode ser inquietação. O silêncio é a fala desistida de ser proferida, mas também é nossa surpresa diante da beleza da prosa e da poesia. O silêncio é o choro contido enquanto o peito rasga e grita de dor. O SILÊNCIO É COVARDIA E É CORAGEM. O silêncio é respeito e petulância. O silêncio revela o conforto da intimidade. O silêncio revela o fim. O silêncio aponta a direção certa, mas dissimula as outras opções. O silêncio agride e, ainda assim, é a melhor forma de afirmação.
Postado por
Priscila Basile
em
6/03/2009
4
comentários
29 de Maio de 2009
pensamento
E de repente ela se calou. Manoel de Barros diria que entrou em estado de árvore. Eu não entendo de árvores, mas compreendo os silêncios.
Postado por
Priscila Basile
em
5/29/2009
1 comentários
27 de Maio de 2009
Pedaços de carnaval
Despediram-se. Era findo o carnaval. As fantasias continuavam pelo chão e os pedacinhos de confete se perdiam sobre a cama. Aquelas coisas todas prenunciavam o cheiro da quarta-feira de cinzas silenciosa. Não havia muito o quê dizer, eles sabiam que o amor iniciado na sexta-feira, acabaria, inevitavelmente, na noite da terça.
Naqueles dias, muita coisa foi dita, sem nenhuma delas ser previamente questionada. A certeza do anonimato e do fim anunciado permitiu-lhes trocar confidências. Trataram-se como se trata a própria consciência, aquela que tem a exclusividade dos pensamentos mais sombrios, dos medos enjaulados e das vontades impublicáveis.
Encontraram-se na rua, em meio aos blocos coloridos de pierrots e colombinas fantasiados. Ao se olharem de cara nua, meio deslocados na bagunça dos tambores e dos tamborins, se aproximaram encabulados. Sem dizer palavra alguma, rumaram para fora da folia e sentaram na sarjeta para fumar um cigarro.
- Eu tenho medo de deixar o gás ligado e um belo dia chegar em casa e não ter mais casa nenhuma. Eu às vezes penso em fugir de todas as pessoas que eu conheço, embora eu as ame sem medidas, só para ter de inventar uma vida nova e não me reconhecer mais na minha. Eu tenho vontade de fazer amor com um desconhecido numa noite de carnaval sem sequer saber seu nome.
- Eu tenho medo de encontrar uma desconhecida no carnaval e desejar fazer amor com ela, sem sequer saber seu nome. Eu tenho vontade de deixar o gás ligado em casa, só para um dia chegar lá e não ter mais casa nenhuma. Eu penso em conhecer e amar pessoas para abandoná-las depois.
Postado por
Priscila Basile
em
5/27/2009
1 comentários
6 de Maio de 2009
Across the universe
Todos eles vêm me assombrar durante meu sono confuso
Contam-me as notícias de outras terras
Passam a vida me mostrando as outras vidas que passam
Esses camaradas não me deixam dormir
Mas me deixam chorar
Tão alto
Tão alto
E eu sou essa vida que contaram pra mim
E eu quero ser essa vida que contam pra mim
A arte, senhores, me faz bem e mal até o último fio de cabelo
Me pega pelas mãos e me mostra a imensidão da rua, das pessoas
E eu não sou nada mais que aquilo que eu descobri.
Há tantas partes de mim perdidas por aí e que eu não sei como encontrar
Mas insisto. Só insisto.
Postado por
Priscila Basile
em
5/06/2009
0
comentários
25 de Março de 2009
Há tantos cataventos na varanda que penso que o ar correndo entre as pás sente cócegas.
O morador do apartamento dos cataventos gosta de saber como o vento que passa se comporta.
Ele sai de sua toca quando o catavento explica que o vento está propício a bater em seu roso.
Postado por
Priscila Basile
em
3/25/2009
0
comentários
13 de Janeiro de 2009
Eu me encontro nos contrários. Nas coisas que se negam e evitam se completar. Eu me encontro na coisa torta, no sentimento confuso, na arte de não saber. Eu me encontro no desaprendizado, na palavra densa e na expressão vazia.
Encontro-me na rua escura e esfumaçada, nos ambientes silenciosos. Encontro-me com pessoas de olhar ausente.
No suspiro.
No desapego.
Na inconstância das opiniões certeiras.
Não tenho planos.
Vejo muito mais coisas do que gostaria. É que essa mania de não parar de olhar me conduz para observações inconvenientes. Me coloca na alma dos outros e me transforma em poucos de tudo, em dores de todos, em alegrias gerais.
Postado por
Priscila Basile
em
1/13/2009
4
comentários
10 de Dezembro de 2008
Carta crua
Não me ame. Eu só vou até ali. Depois disso fica confuso. Eu não sei como conduzir, a estrada fica escura e eu paro o carro. Você pode até pensar que é exagero, mas te digo: eu não alcanço. Meu caminho chega ali e pára, olha pra minha cara e pergunta pra onde eu vou. Respondo que eu não sei. Que na verdade eu nunca soube, que sempre meio deixei levar, que ia conforme o vento. Se via que estava errada, colocava o sapato e voltava, sem medo de perder. Aquele medo típico de quem não sabe onde está. Depois disso fui seguindo, arriscando aqui e ali, nada que me trouxesse pra perto, mas também que não me conduzisse pra longe. Andei no limiar das ruas que não tem saída, depois procurei outras que me levassem para cruzamentos certeiros. Esperei. Não havia o que fazer.
Enquanto isso te deixei aqui, não dei satisfação sequer. Achei que não deveria. Fui conduzindo como achava que era. Sem encontrar nem perder caminhos. E o fato é que não me perdi, mas estive muito mais distante de me encontrar. Negando o que achava que devia, me perdi em contradições, tive vontade de voltar, mas não obedeci. Fugi para outros cantos e procurei novas pessoas. Aterrorizei-me. Fiquei no escuro e em silêncio para que eu não desistisse de ser encontrada, embora isso não estivesse nos meus planos, depois deixei de precisar. Pensei em muita coisa, até em me matar, veja só, mas nem esse era o caminho que eu perseguia, nem resolveria meu problema e saciaria minhas questões. Deixei as coisas para mais tarde, e quanto mais tarde ficava, mais essas coisas acabavam me perseguindo. Eu virei refém.
Postado por
Priscila Basile
em
12/10/2008
0
comentários
18 de Novembro de 2008
Hoje eu não tô pra conversa, não tô pra verdade , não tô nem aí.
Hoje o dia fechou, o trabalho rendeu, e eu nem tô aqui.
Hoje não tem cama que cure, bebida que dure e café que segure.
Hoje o silêncio é pouco, o grito é rouco e a paciência esgotou.
Hoje perdi a poesia, perdi a fantasia e cancelei o carnaval.
Mas só hoje.
É que amanhã a gente bota a roupa, segura no corrimão, repensa a escola de samba , embala a composição, tira a viola do saco e toca a vida na flauta. Ou não.
Postado por
Priscila Basile
em
11/18/2008
1 comentários
9 de Outubro de 2008
Desencontro
Ela chegou ao pequeno salão e acomodou sua bolsa na cadeira vazia ao lado. Abriu a garrafa d’água por hábito, não por sede. Cruzou as pernas e esperou a meia hora que faltava para o início da palestra checando os números do celular.
Ele entrou de maneira desajeitada e se sentou frente ao público escasso, espalhado pelos assentos. Dispensou o microfone e sentindo-se mais confortável pela ausência de uma grande platéia, tirou a camisa para fora da calça e passou a mão rapidamente pelos cabelos. Respirou pesadamente. Olhou para ela sem saber que a via.
Ele fica mais bonito quando está desarrumado, pensou. É uma bagunça não alinhada. Um descomprometimento com a harmonia das vestimentas. A camisa agora amassada e levemente curta que, vagarosamente, seguindo o movimento dos braços, abria frestas para partes do corpo alvo, não esguio, mas ereto e timidamente desenvolto. Levantou e começou a falar, andando de um lado para o outro. Ela ia descrevendo e revelando seu comportamento, que não conhecia, mas a sua imaginação flutuava. Os dedos alongados demonstravam austeridade. Os óculos de aros finos transpareciam sabedoria e a paciência com a mediocridade era um silêncio ante a ignorância da pretensão. Os gestos mornos, pequenos círculos e demonstrações, não apagavam a luz dos olhos sutilmente claros, de pálpebras baixas. O pescoço alongado sustenta uma face de pêlos claros, barba e cabelo rente à cabeça.
Ele sequer imagina o que a moça escondida na platéia começa a desenhar e o pudor a impede de dizer que deseja esse homem calmo. Se envergonha de estar no meio daquelas pessoas, de perceber que ele é o centro das atenções, já que está num palco modesto. Em silêncio, ela continuava procurando palavras que o revelassem sem desmascará-lo. Ficou enrubescida por essa ação desigual – Ela se misturava meio ao público enquanto ele figurava abaixo da luz. Queria chamá-lo de outro nome, mas esqueceu até seu original. Além disso, a falta de intimidade a impedia de inventar-lhe um apelido ou abreviação silábica.
Que músicas ouviria de olhos fechados e quais motivos o levariam às lágrimas? Não haveria outro meio de conhecê-lo, nem de admirar aquele sorriso lateral, a cabeça baixa e intimidada. O desconforto de um palco sem altura. Sentiu-se pouco atraente, ocultando sua sensualidade dançante, ressaltando o olhar hoje mais entristecido, que era coisa da própria vida. Sua roupa amolecida e floral o enganava e ela se furtou a encarar um olhar incerto, por receio de transparecer sua fraqueza. Os nomes que ele falava passeavam por sua retina, mas nenhum era arquivado em sua memória. Longínqua e distraída.
Ela se levantou antes do fim e sem olhar para trás. Ele acompanhou seu trajeto até a porta que dava para o saguão. Distraiu-se por um segundo de seu discurso e gaguejou. Com a porta já fechada, ele olhou para as mãos e lamentou a ausência dela, retomando as palavras dirigidas a ninguém.
Postado por
Priscila Basile
em
10/09/2008
2
comentários
4 de Setembro de 2008
Não tenho medo. Tenho silêncios.
[são tempos de frases curtas]
Postado por
Priscila Basile
em
9/04/2008
5
comentários
3 de Setembro de 2008
As pessoas são mais bonitas quando estão desarrumadas.
Postado por
Priscila Basile
em
9/03/2008
0
comentários
29 de Julho de 2008
Meu avô
Alguém me segue pela casa durante todo o dia. Falta tema para seguir com uma conversa, por mais que ele demonstre vontade de começar alguma. Decido preparar uma garrafa de café. Em vários lugares do mundo, a bebida pode ser motivo de grandes encontros e papos. Seria meu ponto de partida para rever memórias espalhadas pelo tempo e espaço da mente do meu avô.
Café na mesa, algumas bolachas.
- Sente-se meu avô.
- Cafezinho é sempre bom – diz ele, que passados longos anos de sanidade seguidos por decadente perda de memória, o substantivo avô não lhe causa estranhamento
Hesito para verificar se ele começa o assunto. Silêncio.
- E a Vovó Marina, vô? Sente saudades?
- Hum, Marina foi uma namorada minha, bonita que só!
- E seus filhos?
Silêncio. Ele muda de assunto.
- Sabe, existem as coisas. Vou falar para o meu pai, quando ele morrer, dividir entre mim e os meus irmãos. Aí eu pego essas coisas e dou para minha filha cuidar de mim.
Ele chora. Meu bisavô morreu há muito tempo atrás, antes mesmo de minha mãe nascer, seus irmãos não lhe foram companheiros durante toda a vida. Alguns morreram, outros sumiram por diversas cidades. Moravam em uma cidade chamada Santa Cruz, distrito há muito extinto de Ribeirão Preto.
- Onde estou?
- Em Piraju vô. Na casa de sua filha.
- Quem é minha filha?
Aponto para minha mãe.
- Não, essa é Aninha, minha irmã, que não me deixa ir para canto algum.
- Hum.
- Eu me sinto sozinho sabe? Lembro de uma imensidão de coisas e, de repente, tudo fica escuro, vazio, como se eu caísse em um buraco negro.
Percebi que, na verdade, ele se sente muito sozinho, não reconhece as pessoas e tem espasmos de memória que lhe trazem sentimentos muito distantes.
Certa altura do dia, ele pede dinheiro para ir ao bar. Algumas vezes não se pode dar, atrapalha o efeito dos remédios. Não há muito o que fazer, negar a cerveja diária é o mesmo que tirar sua única lembrança dos dias. Não é justo.
Olho em seus olhos, bem fundo, e não consigo resgatar uma lembrança sequer. Nada. É como se por trás da pupila, de dentro da retina, não existisse mais nada, a não ser um emaranhado de idéias confusas, sem cronologia correta, tudo espalhado dentro de um quarto que necessita de arrumação.
Postado por
Priscila Basile
em
7/29/2008
1 comentários
6 de Julho de 2008
Comecei pelo fim.
Até agora não decidi para onde vou.
p.s: [Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou.
Roteiro da vida,
Quem é que o traçou?]
Camilo Pessanha
Postado por
Priscila Basile
em
7/06/2008
1 comentários
12 de Junho de 2008
Cinema Paradiso
Postado por
Priscila Basile
em
6/12/2008
3
comentários


